O El Niño é um padrão natural do clima que nasce no Oceano Pacífico tropical e pode afetar o tempo no mundo todo. Ele aparece, em média, a cada dois a sete anos, mas sem calendário fixo. A força muda muito de um episódio para outro. Antes de 2026, os episódios recentes que a NASA chamava de muito fortes eram os de 1997-98 e 2015-16. Neste guia, super El Niño é o nome desses eventos extremos.

Em 2026, um novo episódio passou a ser comparado a esses dois. Em 8 de outubro daquele ano, a NOAA, agência americana de oceanos e atmosfera, apontava 83% de chance de um El Niño forte a muito forte nos três primeiros meses de 2027. Os satélites mostravam um Pacífico muito parecido com o de outubro de 1997.

O que é o El Niño e o que faz dele um super El Niño?

O nome vem do espanhol e quer dizer “o menino”. Pescadores da América do Sul notaram, no século 17, períodos de água incomumente quente no Pacífico. Eles chamavam o fenômeno de El Niño de Navidad, o menino do Natal, porque o pico costuma chegar perto de dezembro. A irmã fria, La Niña, quer dizer “a menina”.

Os cientistas tratam os dois como fases de um mesmo ciclo, chamado ENSO, sigla em inglês para El Niño-Oscilação Sul. O El Niño é a fase quente, e a La Niña, a fase fria. Quando nenhum dos dois está presente, o ciclo fica neutro. A Oscilação Sul é a gangorra da pressão do ar entre o oeste e o leste do Pacífico tropical.

A ciência levou tempo para juntar as peças. Nos anos 1920, o estatístico e físico britânico Gilbert Walker estudava as monções na Índia e deu nome a essa gangorra. Cerca de quatro décadas depois, Jacob Bjerknes ligou a gangorra do ar ao aquecimento e ao resfriamento do Pacífico. O padrão em si é muito mais antigo: sinais químicos em corais o registram desde a última Era do Gelo.

Segundo o Centro de Previsão do Clima (CPC) da NOAA, um El Niño costuma durar de 9 a 12 meses. Episódios longos já duraram dois anos e até três ou quatro. O ciclo costuma se formar entre março e junho, atingir o auge entre dezembro e abril e perder força entre maio e julho. A NASA situa o pico típico entre novembro e janeiro.

Uma forma de ver a diferença entre um El Niño comum e um super El Niño é pela temperatura do mar. Pelo CPC, num El Niño típico, a superfície do Pacífico centro-leste fica de 1,5 °C a 2,5 °C acima da média. A NASA registra que, em 2023-2024, o aquecimento chegou a cerca de 2,0 °C. Nos episódios bem mais fortes de 1997-98 e 2015-16, passou de 2,5 °C.

Num evento forte, a área de água quente também cresce. Segundo o CPC, essa piscina quente chega a cobrir toda a metade leste do Pacífico equatorial. Em outubro de 1997 e em outubro de 2026, a água alta e quente se estendia até a costa da América do Sul, segundo a NASA.

Como o vento e o oceano criam o aquecimento?

Em condições normais, os ventos alísios sopram para o oeste ao longo do equador. Eles levam a água quente da América do Sul em direção à Ásia. No lugar dela, sobe das profundezas uma água fria e rica em nutrientes, num processo chamado ressurgência. Em parte por causa desses ventos, o mar perto da Indonésia costuma ficar de 40 a 50 centímetros mais alto do que na costa do Equador.

O El Niño começa quando os alísios enfraquecem ou até mudam de direção. A água quente acumulada no oeste passa a correr para o leste em ondas de Kelvin. Essas ondas são pulsos lentos de água, com milhares de milhas de comprimento, que levam calor de um lado ao outro do Pacífico. “As ondas de Kelvin são como o batimento cardíaco do El Niño”, disse Josh Willis, cientista do Laboratório de Propulsão a Jato (JPL) da NASA.

O processo se alimenta de si mesmo. A água quente aquece o ar logo acima, que sobe e muda a pressão atmosférica. Os alísios perdem mais força, e mais água quente segue para o leste. Michael McPhaden, da NOAA, comparou essa troca ao problema do ovo e da galinha. Ventos mais fracos aquecem o mar, e o mar mais quente enfraquece ainda mais os ventos.

Sob a superfície, a mudança também é grande. A termoclina, camada fina que separa a água de cima da água funda, fica mais profunda no leste. Num El Niño típico, segundo o CPC, ela desce para 150 a 175 metros. Essa camada quente mais grossa corta a subida habitual da água fria e cheia de nutrientes.

A chuva acompanha o calor. Em anos neutros, a maior parte da chuva cai sobre o oeste do Pacífico. Durante o El Niño, muito mais chuva se forma no centro e no leste do oceano. Indonésia, Sudeste Asiático e norte da Austrália ficam secos e muitas vezes enfrentam seca. A corrente de jato, faixa de ventos fortes no alto da atmosfera, também muda de lugar e desvia a rota das tempestades.

Como a ciência mede e declara um El Niño?

A medida central vem de uma faixa do oceano chamada região Niño 3.4. Ela fica entre 5° norte e 5° sul, de 120° a 170° oeste, no Pacífico centro-leste. Na página de perguntas de 2012, a regra do CPC para declarar o início de um El Niño era a média de três meses passar 0,5 °C acima do normal ali.

Dessa conta nasce o ONI, sigla em inglês para Índice Niño Oceânico. Ele é a média de três meses seguidos de quanto a temperatura do mar na região Niño 3.4 ficou acima ou abaixo do normal, recalculada a cada mês. Na tabela histórica do CPC, um período só ganha cor de El Niño quando o limite se mantém por pelo menos cinco desses trimestres seguidos, que se sobrepõem: dezembro a fevereiro, janeiro a março, e assim por diante.

Na versão de 2026 da tabela, o CPC avisava que, pelo comunicado 26-05 do Serviço Nacional de Meteorologia americano, o monitoramento e a previsão oficiais do ENSO usavam outro índice, o RONI, sigla em inglês para Índice Niño Oceânico Relativo.

Os picos do ONI ajudam a comparar os gigantes. Os valores abaixo, em graus Celsius acima da média, são o maior número de cada episódio na tabela do CPC, na versão 6 da série de temperatura do mar:

  • 1982-83: 2,1
  • 1997-98: 2,4
  • 2015-16: 2,6
  • 2023-24: 2,0
  • 2026, trimestre de agosto a outubro: 2,5

O valor de 2026 é o último da tabela consultada, não necessariamente o pico do episódio. O próprio CPC avisa que os últimos valores do ONI devem ser tratados como estimativa. Eles podem mudar até dois meses depois da primeira publicação.

Para chegar a esses números, a ciência combina instrumentos no mar e no espaço. Segundo uma página da NASA atualizada em 2026, cerca de 4.000 equipamentos no mar registravam a temperatura nos 300 metros de cima do oceano global. Entre eles estão boias à deriva e os flutuadores Argo, que sobem e descem entre a superfície e grandes profundidades. Numa página de perguntas de 2012, o CPC citava ainda uma rede de 70 boias ancoradas no Pacífico equatorial.

Do espaço, radiômetros medem a energia em infravermelho e micro-ondas que sai dos primeiros milímetros da água. Desde o fim dos anos 1970, os satélites dão uma visão global da temperatura da superfície do mar. Eles preenchem os vazios entre os pontos onde há boias e navios.

Outra ferramenta é a altimetria, que mede a altura da superfície do mar. Como a água se expande ao esquentar, o mar mais alto que o normal indica calor acumulado. Em 2026, satélites quase idênticos, em trajetórias quase iguais, somavam um registro de 35 anos, segundo Willis. O TOPEX/Poseidon observou 1997, o Jason-2 viu 2015 e o Sentinel-6 Michael Freilich acompanhou 2026. Os satélites Sentinel-6 medem a altura de todo o oceano a cada dez dias.

A cor do mar completa o quadro. O satélite PACE, lançado em 2024, observa o oceano em centenas de comprimentos de onda de luz. Em 2026, no primeiro El Niño desde o lançamento, ele mostrou o Pacífico equatorial cada vez mais azul. Segundo a NASA, a cor mais azul indica menos fitoplâncton, as plantas microscópicas que formam a base da cadeia alimentar marinha. Sensores de cor do oceano mais antigos já tinham acompanhado esse efeito em 1982-83 e em 1997-98.

Na página de perguntas de 2012, o CPC contava que o sistema de observação do ENSO incluía satélites e boias. Grandes modelos de computador do oceano e da atmosfera, nos Centros Nacionais de Previsão Ambiental da NOAA, usavam esses dados para prever o El Niño.

Que efeitos um El Niño muito forte espalha pelo mundo?

O Pacífico cobre um terço do planeta. Por isso, as mudanças de vento e umidade ali se transmitem pelo mundo, em padrões que os cientistas chamam de teleconexões. Segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para o Clima e a Sociedade, da Universidade Columbia, o ENSO responde por até 50% da variação do clima de um ano para outro em algumas regiões.

No mar, o primeiro golpe é na comida. Com menos ressurgência, falta nutriente, e o fitoplâncton diminui. Os peixes que comem plâncton perdem alimento, e os peixes maiores que comem esses peixes também. No El Niño de 1982-83, quase 25% das populações de lobos-marinhos e leões-marinhos da costa do Peru morreram de fome. Correntes fora do comum também podem levar espécies tropicais até as águas da Califórnia.

Em terra, a falta de chuva vira fogo. Na Indonésia, o fogo usado para limpar terra costuma ser apagado pelas chuvas tropicais. Quando a chuva some num El Niño forte, esse fogo sai do controle. Em 1997-98, a poluição desses incêndios foi apontada como causa de milhares de mortes prematuras. Em 2015-16, segundo um estudo de cientistas de Harvard, os incêndios contribuíram para até 100 mil mortes.

O calor também sobe. O El Niño não é causado pela mudança climática, mas costuma produzir alguns dos anos mais quentes já registrados. O motivo é a enorme quantidade de calor que passa das águas do Pacífico para o ar. Nesses anos, a alta do gás carbônico na atmosfera fica mais acentuada, porque a vegetação sob calor e seca absorve menos carbono.

Os furacões mudam de lugar. O cisalhamento do vento é a mudança do vento conforme a altura, e furacões só se formam quando ele é baixo. No El Niño, mudanças nos ventos do alto e de baixo da atmosfera fazem esse cisalhamento cair no leste do Pacífico e subir no Atlântico tropical. Segundo o CPC, com isso o El Niño contribui para mais furacões no leste do Pacífico e menos no Atlântico.

O custo humano aparece nos números da ONU e de redes de alerta. A ONU atribuiu ao El Niño de 1997-98 mais de 20 mil mortes e US$ 36 bilhões em danos à infraestrutura. Em abril de 2016, um escritório da ONU informou que 60 milhões de pessoas precisavam de ajuda alimentar. Em 2023, a FEWS NET, rede de alerta precoce contra a fome, projetava 110 milhões nessa situação.

O transporte também sente. Em 1998, 2015 e 2023, a falta de chuva baixou a água do Canal do Panamá. Os operadores tiveram de restringir a passagem de alguns navios grandes.

E no Brasil?

Segundo a NASA, o Brasil costuma ter calor fora do comum durante o El Niño. Chove menos no norte, e chove mais do sul do Brasil até a Argentina. Regiões úmidas da Amazônia brasileira muitas vezes entram em secas de meses. Nos episódios muito fortes de 1997-98 e 2015-16, houve incêndios na Amazônia.

No sul, o problema é o excesso de água. Em novembro de 2023, chuvas muito fortes alagaram o sul do Brasil. Meteorologistas atribuíram sobretudo ao El Niño a maior intensidade e frequência das chuvas na região. Em janeiro de 2016, enchentes desalojaram mais de 150 mil pessoas no Uruguai, no Paraguai e na Argentina. O Ministério da Saúde Pública e Bem-Estar Social do Paraguai emitiu alerta para dengue, chikungunya e zika, doenças transmitidas por mosquito.

O que a ciência ainda não sabe?

A primeira lacuna é a origem. Os cientistas sabem que grandes mudanças nos ventos e nas águas do Pacífico dão início ao El Niño. O que dispara essas mudanças continuava um mistério, segundo uma página da NASA atualizada em 2026.

Em 1999, o cientista George Philander comparou o fenômeno a um sino, que precisa de uma batida para tocar. Na mesma página, a NASA registrava que, depois de quase cem anos de estudo, os cientistas ainda não sabiam o que bate no sino.

A segunda lacuna é o jeito de cada episódio. “A busca pelo El Niño típico é muito esquiva”, disse Willis. O de 2015-16 foi muito forte, mas menos água quente chegou à costa da América do Sul. No inverno do hemisfério norte daquele episódio, os efeitos da chuva se concentraram mais na América Central e no sudeste dos Estados Unidos, com enchentes graves no México. Já o de 2026 surgiu de forma muito mais repentina do que o de 1997.

A semelhança com 1997 também não garante um resultado igual. Willis avaliou que os impactos de 2026 podem ser parecidos, como a muita chuva que caiu na Califórnia em 1997-98. Mas ele lembrou que o sinal do El Niño passa por uma atmosfera caótica e pode se embaralhar longe dos trópicos. “Há sempre um pouco de jogo de dados aqui”, disse.

Uma terceira questão é a relação com o aquecimento global, que o CPC tratava como aberta em 2012, na última atualização da sua página de perguntas. O texto dizia que não dava para descartar uma ligação, mas que era cedo para afirmar uma ligação definida.

O CPC também aponta um erro. Não é correto chamar uma tempestade ou um evento isolado de “evento do El Niño”. O fenômeno muda a posição e a força das correntes de jato e das áreas de alta e baixa pressão. Essas mudanças é que alteram a força média e o caminho das tempestades.

Mesmo com essas incertezas, prever melhor tem valor prático. Com aviso antecipado, gestores poderiam ajustar a pesca, escolher o que plantar e reservar recursos contra mosquitos, segundo a NASA. O CPC cita também gestores de água, energia e transporte, além de agricultores. Para eles, saber a duração e a força de um episódio ajuda a evitar ou reduzir perdas.

Para Willis, muita gente já viu o que o fenômeno pode fazer, e é no oceano que a ciência busca entender o porquê. “O El Niño toca quase todos nós de alguma forma, toda vez que acontece”, disse.