Tem gente dizendo que tirar inteligência artificial de sala de aula protege criança. Tem gente dizendo que essa mesma proibição machuca justamente quem mais precisa de ajuda extra pra aprender. Nova York acabou de colocar esses dois lados pra brigar de verdade -- e a decisão afeta cerca de 600 mil alunos, da pré-escola até o oitavo ano.
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No dia 2 de setembro, o prefeito Zohran Mamdani e o chanceler das escolas públicas, Kamar Samuels, anunciaram uma moratória de um ano bloqueando ferramentas de IA generativa voltadas pra aluno -- tutores e chatbots inclusos -- pra cerca de dois terços da rede escolar da cidade, a maior dos Estados Unidos. Ensino médio ainda mantém acesso limitado, só que restrito a alguns programas-piloto avaliados com cuidado, atendendo poucos milhares de estudantes. Mamdani resumiu o motivo assim: "criança precisa de professor e de conexão humana pra aprender e crescer".
Nova York não está sozinha nessa
A decisão acompanha um movimento que já vinha crescendo pelo país. Em maio, Randi Weingarten, presidente da American Federation of Teachers, pediu banimento de tela nas séries iniciais, fim da IA voltada pra aluno no ensino fundamental menor e restrição de chatbot de companhia pra menores de 16 anos. Ela citou uma pesquisa com 3 mil professores, na qual 88% relataram queda na atenção dos alunos, além de notas mais baixas em leitura e matemática coincidindo com mais tecnologia em sala. Pelo menos 17 estados dos EUA hoje avaliam lei pra restringir tecnologia durante o horário escolar, e cidades como Los Angeles já colocaram limite de tempo de tela em prática.
O outro lado: "isso tem um custo escondido"
Só que várias empresas de tecnologia educacional discordam do tamanho do corte. Ivan Crewkov, fundador da Buddy.ai (tutor de idioma por IA com certificação COPPA, a norma americana de proteção de dado infantil), resume assim: "num distrito bem financiado, um banimento geral é um incômodo. Num distrito sem recurso, ele tira algo que essas crianças não têm alternativa nenhuma pra substituir".
O argumento pesa mais em lugares como a Califórnia, onde crianças que aprendem em duas línguas são metade dos alunos de pré-escola -- a maioria de família de baixa renda -- num estado que já tem dificuldade de contratar professor bilíngue suficiente. Uma metanálise do National Bureau of Economic Research encontrou "impacto positivo substancial" de tutoria sobre aprendizado, principalmente nos primeiros anos escolares. Some a isso a falta de professor: segundo uma análise de 2025 do Learning Policy Institute, cerca de 411.500 vagas de professor nos EUA seguem sem preencher ou ocupadas por gente sem certificação -- uma em cada oito vagas --, afetando mais de 6 milhões de alunos.
Nem toda IA é a mesma coisa, dizem os defensores
Quem defende o uso educacional insiste numa distinção: ferramenta feita pra sala de aula não é a mesma coisa que chatbot genérico. Abhijeet Sethi, da LearningMate, separa as duas categorias: um chatbot qualquer versus algo "feito sob medida pra educação -- desenhado em torno de pedagogia, segurança e do currículo que aquele aluno específico está cursando". Bob Chopra, da IvySchool.ai, destaca a personalização: "cada aluno tem uma experiência completamente diferente, baseada em quem ele é: ritmo diferente, conteúdo diferente, exemplo diferente. Não é o que o aluno médio precisa, é o que aquele aluno específico precisa".
Crewkov reforça o ponto da segurança: "ferramenta genérica tipo ChatGPT ou Perplexity não foi construída pensando em criança, nem do lado da segurança nem do lado do aprendizado" -- e conta que a Buddy construiu sua própria tecnologia de IA por conta própria, sem depender de modelo de linguagem de terceiro. Já John Kobs, da Giant (app de narrativa por IA com certificação COPPA), separa consumo de criação: "uma criança presa num feed infinito está consumindo. Uma criança usando IA pra tirar uma ideia do papel está criando. Não é a mesma coisa".
Talvez o problema não seja o aparelho
Nem todo mundo do setor concorda que restringir acesso seja o melhor caminho. Charlie Sander, CEO da ManagedMethods (empresa de segurança digital pra escola), acha a restrição "um pouco exagerada" e defende focar em como a tecnologia é usada, não no aparelho em si: "a maior ameaça de segurança hoje não está no aparelho -- está na conta na nuvem e no dado que ela guarda". A conferência de 2026 do Consortium for School Networking seguiu linha parecida, defendendo que o importante é definir pra que a ferramenta vai ser usada, não simplesmente proibir. Fei-Fei Li, cientista da computação de Stanford apelidada de "madrinha da IA", resumiu a tensão dos dois extremos: "negar a ferramenta" de um lado, "tirar a autonomia e a motivação" do outro.
Sander defende um meio-termo: criar regras de governança que liberem ferramenta aprovada e, ao mesmo tempo, monitorem conta escolar e aplicativo de terceiro. Kobs prefere mirar o comportamento específico que preocupa -- "dependência emocional, pedir pra criança guardar segredo, isolar ela de adulto ou simular relação exclusiva" -- em vez de proibir a conversa como um todo.