Fezes de pinguim estão ajudando a deixar verdes trechos da neve no litoral da Antártida, segundo um novo estudo. Nas amostras, a neve dominada por algas verdes tinha bem mais fosfato, nutriente abundante nas fezes de pinguim, do que a dominada por algas vermelhas. Esse resultado é um indício de que os nutrientes das fezes das aves ajudam a sustentar as manchas verdes.

O estudo é assinado por Elise Ryan, autoria principal, e por Alia Khan, da Universidade do Colorado em Boulder. A equipe cruzou de barco a Passagem de Drake e recolheu neve manchada com colheres de cerâmica. A coleta cobriu cinco graus de latitude na Península Antártica Ocidental, em pontos com e sem colônias de pinguins.

Às vezes, a equipe trabalhava ao lado de montes de fezes de pinguim. “É muito fedido trabalhar perto dos pinguins”, disse Khan. No laboratório, os cientistas contaram as células de alga ao microscópio e mediram pigmentos e nutrientes das amostras. O estudo saiu em 7 de outubro de 2026 na revista Journal of Geophysical Research: Biogeosciences.

Os nutrientes vêm do mar. Os pinguins os obtêm na dieta marinha e os levam para a terra nas fezes. Outras aves marinhas, como as skuas, fazem o mesmo e espalham fosfato pela neve da costa, onde recursos essenciais podem ser escassos. “Essa descoberta liga a teia alimentar marinha à ecologia da neve”, disse Khan. Ainda segundo Khan, as fezes dos pinguins agem como adubo e alimentam as manchas verdes densas de algas.

Com nutriente de sobra, as algas produzem clorofila e outros pigmentos verdes, usados na fotossíntese, e crescem rápido no curto verão antártico. Em condições mais duras, ou com pouco nutriente, entram num estado de proteção. Produzem pigmentos vermelhos que agem como protetor solar e crescem mais devagar. Segundo os pesquisadores, o fosfato ajuda a explicar por que parte das algas continua verde.

A cor das manchas faz muita diferença na quantidade de energia do sol que a neve absorve. Neve com algas vermelhas absorve cerca de 20% mais luz do sol que a neve branca e limpa. A neve verde absorve perto de 40% mais. Com mais algas verdes crescendo, a neve da costa pode absorver mais luz. Esse escurecimento pode reforçar o degelo já em curso em partes da Antártida.

Khan chama a ligação entre fauna, nutrientes e algas de “componente crítico que falta” nas projeções de avanço das áreas sem gelo no continente. “Sem considerar esses efeitos biológicos de escurecimento, provavelmente estamos subestimando a rapidez com que a neve costeira está derretendo”, disse Khan.

Com a mudança das condições na Antártida, as populações de pinguins podem se deslocar mais para o sul. Isso pode levar fezes ricas em nutrientes a novos trechos com algas e estender a influência dessas manchas por uma área maior. O alcance futuro delas e o efeito no degelo, porém, ainda são incertos.