Um exame do cérebro pode, um dia, mostrar se o tratamento contra a depressão ou a ansiedade está funcionando antes que o paciente sinta melhora. É aí que a pesquisadora Sandra Klonteig, do SINTEF, vê o maior potencial da neurotecnologia. O termo reúne métodos que permitem medir e entender melhor o cérebro.

Na cena imaginada pela reportagem do News-Medical, o paciente volta ao médico algumas semanas depois, sem notar diferença. O médico talvez possa dizer que o cérebro já mostra sinais de mudança, mesmo com os sintomas iguais. “Mudanças biológicas podem acontecer antes que os sinais clínicos fiquem visíveis”, diz Klonteig.

Os testes também podem mostrar o contrário: que o tratamento não faz o efeito desejado e que é melhor tentar outro. Para Klonteig, detectar mais rápido se um tratamento funciona ou não poderia poupar os pacientes de semanas ou meses de incerteza e estresse desnecessário. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 1 bilhão de pessoas vivem hoje com transtornos mentais, e ansiedade e depressão são os mais comuns.

O problema prático é como medir o que se passa no cérebro. Os pesquisadores dizem que a resposta está nos padrões de atividade cerebral de pessoas com depressão e ansiedade. Uma pista é o viés de atenção, a tendência de focar no lado negativo de uma situação. O rastreamento ocular pode ser útil para estudá-lo: ele registra para onde a pessoa olha e onde está seu foco, em geral diante de uma tela.

Klonteig dá um exemplo. Depois de um filme de terror, num passeio pelo bosque, algumas pessoas podem ver ameaça nas sombras, e outras reparam na luz que passa entre as árvores. Com o tempo, diz ela, o jeito de interpretar o entorno pode reforçar uma espiral negativa e levar à depressão ou a outros problemas de saúde mental.

Outro caminho é medir desvios nas redes funcionais do cérebro, ou seja, como áreas diferentes colaboram e se comunicam. Essas redes estão ligadas a funções cognitivas e emocionais. Como não é realista fazer procedimentos invasivos no cérebro de todo paciente, Klonteig considera mais prático usar toucas com sensores, as chamadas tecnologias não invasivas. “Esta é uma das áreas em que estamos focando agora no SINTEF”, diz.

Entre os métodos citados na reportagem está a fNIRS, sigla em inglês para espectroscopia funcional no infravermelho próximo. Ela mede o fluxo de sangue no cérebro e mostra onde o órgão gasta energia. O EEG, ou eletroencefalografia, capta os impulsos elétricos gerados no cérebro. Já a fMRI, a ressonância magnética funcional, mapeia a atividade cerebral pelas mudanças no fluxo sanguíneo. Esses métodos são usados junto com medidas de comportamento e psicológicas, e podem ser combinados.

O campo também avança por outras frentes. Pesquisadores desenvolvem chips minúsculos que podem ser implantados no cérebro de camundongos. Em outro tipo de chip, que imita as condições do cérebro, células nervosas ou pedaços de tecido recebem um remédio. Eletrodos minúsculos, microscópios ou a análise do líquido em volta mostram a reação.

Células-tronco também são levadas a virar tipos específicos de células nervosas, o que permite estudá-las sem tirar células de um cérebro vivo. E a inteligência artificial pode ser treinada para achar anomalias em imagens de ressonância magnética, como sinais de tumor, muitas vezes mais rápido que humanos.

Klonteig entrou na neurotecnologia durante o doutorado na OsloMet. Hoje trabalha no departamento de Saúde do SINTEF Digital, e sua formação está na interseção entre tecnologia, neurociência e saúde. Ela lembra que a área foi por muito tempo associada à ficção científica, em filmes como Matrix e Minority Report. “Hoje, muitas dessas tecnologias não são mais pura fantasia”, diz.

No longo prazo, segundo ela, a tecnologia pode permitir que médicos detectem mudanças no cérebro e na saúde mental antes que a própria pessoa as perceba. Isso poderia ajudar na prevenção e num diagnóstico mais cedo. Mas, para chegar lá, diz Klonteig, primeiro é preciso entender os mecanismos cerebrais por trás dos transtornos mentais. São esses mecanismos que os pesquisadores tentam medir agora.