Os quatro tripulantes que passaram cinco dias a 7 metros de profundidade, na Flórida, sentiram que respondiam mais devagar aos testes do que antes de descer. O relato é da astrobióloga Michaela Musilova, comandante da missão SEA STAR, em texto publicado no Space.com.

Os testes eram do estudo da própria Musilova sobre o efeito da pressão na capacidade de raciocinar e no tempo de reação. O estudo faz parte de uma parceria com o Centro de Medicina Hiperbárica da Faculdade de Medicina da Universidade de Ostrava, na República Tcheca. O Hospital Municipal de Ostrava também participa.

Para completar esses dados, a equipe testou sensores ambientais feitos por estudantes de ensino médio e de universidade da Eslováquia. Segundo a comandante, os aparelhos deram informação complementar importante sobre as condições de vida dentro do habitat.

A pressão também deixou marca nas plantas. Brandy Nunez, responsável por saúde e segurança, cultivou brotos de couve e de uma mistura de saladas antes da missão; outras sementes começaram a crescer já debaixo d'água. Todas desceram ao laboratório de dois jeitos: com a pressão liberada aos poucos ou de repente.

Na colheita, as sementes do segundo grupo mostraram barotrauma, o dano causado por um aumento repentino da pressão do ar.

Os outros dois tripulantes tinham seus próprios projetos. O oficial executivo Paul Bakken estudou como controlar a pressão interna de contêineres de carga quando o ambiente em volta muda muito de pressão. A especialista de missão Jenn Pint trabalhou com a Interstellar Performance Labs num sistema para classificar fatores do ambiente e da convivência da equipe em missões simuladas. Nos mergulhos, o grupo ainda fez experimentos de flutuação neutra, quando o corpo nem afunda nem sobe.

O endereço da missão foi o Jules' Undersea Lab, um laboratório submarino perto de Key Largo. Musilova o chama de "ISS molhada": a ideia era viver e trabalhar como os astronautas da Estação Espacial Internacional. Segundo ela, só um pequeno número de astronautas vai à estação, com poucas pesquisas por fazer. Por isso, bases debaixo d'água servem para missões espaciais simuladas.

Ao fim dos cinco dias, os quatro viraram aquanautas, nome de quem fica mais de 24 horas debaixo d'água sem subir à superfície. Esse estado se chama saturação. Nele, os tecidos do corpo absorvem o máximo possível de gás inerte, como o nitrogênio, para aquela profundidade e pressão.

A rotina tinha seu preço. A comandante cita o barulho alto e constante das máquinas de suporte à vida, problemas no encanamento do banheiro e preocupações de saúde ligadas a viver sob pressão. Nos mergulhos, chamados pela equipe de caminhadas espaciais, a pouca visibilidade exigia muito cuidado.

Como fazem os astronautas, a equipe reservou tempo para divulgação. O grupo ligou para a Cosmic Region, uma estação espacial simulada na Eslováquia, e mostrou o habitat por dentro.

Musilova, que segundo sua biografia comandou 40 missões simuladas à Lua e a Marte, o maior número até hoje, diz ter sentido um efeito parecido com o que astronautas relatam ao ver a Terra do espaço. Para ela, ver os raios de sol atravessando a água reforçou a vontade de cuidar do planeta.

A saída também pediu calma. Depois do último mergulho, a tripulação fez um longo desvio pela lagoa em volta para o corpo se ajustar a pressões menores. Mesmo a só 7 metros, havia um risco pequeno de problemas de descompressão, que podem atingir aquanautas depois de algum tempo em saturação.