Em amostras de tumores de pacientes, pesquisadores encontraram evidências de que o RSO-021 atingiu o alvo biológico pretendido. No ensaio inicial com pessoas com mesotelioma que voltou após tratamento, a doença parou de avançar em 67% dos participantes.
O medicamento foi desenvolvido a partir de pesquisas da Universidade de Vermont e usa tiostreptona, um antibiótico natural, para bloquear a PRX3. Essa enzima antioxidante ajuda células tumorais a neutralizar moléculas que podem danificá-las. Sem a proteção, o peróxido de hidrogênio se acumula nas mitocôndrias, estruturas que produzem grande parte da energia celular, e pode levar à morte da célula.
O ensaio de fase um, patrocinado pela RS Oncology, ocorreu no Reino Unido entre 2022 e 2023. Os médicos aplicaram o RSO-021 diretamente no peito por um cateter. A aplicação local permite concentrar o medicamento perto do tumor e reduzir a quantidade que circula pelo restante do corpo.
O estudo atingiu seus objetivos de segurança e tolerabilidade na dose de 90 miligramas, e nenhuma morte foi atribuída ao medicamento. Alguns tumores diminuíram. Entre os 15 pacientes do grupo, a sobrevida geral foi melhor do que a normalmente observada com as terapias disponíveis, segundo os pesquisadores. Já o tempo médio sem avanço da doença foi de 4,2 meses, resultado aproximadamente comparável ao de tratamentos existentes.
Brian Cunniff, professor da Universidade de Vermont e diretor científico da RS Oncology, disse que a sobrevida observada é promissora e espera que o resultado se mantenha com mais pacientes. Ele também afirmou que o medicamento pode matar células tumorais e alterar o ambiente imune ao redor do tumor, o que poderia ajudar o sistema imunológico a atacar ou conter a doença.
A estratégia nasceu de estudos de laboratório iniciados na universidade por volta de 2015. Em experimentos, a retirada completa da PRX3 de células de mesotelioma reduziu bastante seu crescimento e impediu que formassem tumores em animais. Outros grupos observaram que camundongos saudáveis sem essa enzima não apresentaram efeitos adversos. Para a pesquisadora Victoria Gibson, essa evidência em camundongos apoia a abordagem do grupo.
O trabalho também avançou para além do ensaio inicial. Pesquisadores da universidade e da empresa, junto com a Universidade de Leicester e outras instituições britânicas, desenvolvem inibidores de PRX3 de segunda geração com maior solubilidade. Versões futuras poderiam ser tomadas como comprimido, possibilidade que facilitaria a administração e poderia ampliar o uso para além do mesotelioma.
Na Universidade de Vermont, Gibson, autora principal do estudo, participa de pesquisas sobre tiostreptona em tumores do peritônio, incluindo mesotelioma, câncer gástrico e outros cânceres gastrointestinais. O trabalho é feito com Conor O’Neill, oncologista cirúrgico do centro de câncer e do serviço de saúde da universidade. Cunniff disse acreditar que o mecanismo possa ser aplicável a outros cânceres.
O mesotelioma é raro e agressivo, e as opções de tratamento continuam limitadas. Cerca de 30 mil pessoas recebem esse diagnóstico no mundo a cada ano; a sobrevida mediana é de aproximadamente 12 meses, e a taxa de sobrevida em cinco anos fica perto de 10%. Cunniff descreve o mesotelioma como uma doença com grande necessidade médica não atendida.
Segundo a universidade, a fase dois do ensaio foi concluída, e os pesquisadores previam apresentar os resultados num encontro mundial de oncologia em 2026. Cerca de 90% dos pacientes com mesotelioma desenvolvem derrame pleural, acúmulo de líquido entre o pulmão e a parede do tórax, e muitos deles já têm por isso o cateter pelo qual o RSO-021 é aplicado.
