Em Cruzeiro do Sul, cidade do Vale do Taquari, o bairro Passo de Estrela não vai ser reconstruído onde estava. A enchente de 2024 destruiu mais de 600 casas ali. O plano adotado leva a comunidade para um terreno mais alto, a cerca de três quilômetros do bairro antigo, e as obras começaram em maio de 2026.
O novo bairro terá 150 casas, 174 lotes, áreas de lazer e de preservação ambiental, comércio e espaços de convivência. Há também terrenos reservados para uma escola e uma igreja. O cronograma prevê entregar as moradias entre dezembro de 2026 e outubro de 2027. No lugar antigo, a proposta é criar um parque memorial e proibir novas casas.
A cidade fica a cerca de 126 quilômetros de Porto Alegre e tem 11.600 moradores. Na cheia do rio Taquari, cerca de metade deles teve de deixar a própria casa, e perto de 95% do comércio foi atingido.
Camilla Ghisleni, autora de uma análise sobre a reconstrução publicada pelo ArchDaily, avalia que mudar de lugar pode ser mais viável em cidades menores, com menos construções e mais terra livre. Ela ressalva que o sucesso depende de os moradores manterem as relações e as redes de apoio do bairro antigo.
"Foi o que eu pedi: ficar perto dos meus vizinhos. Estamos todos na mesma rua; só mudamos de bairro", disse uma moradora do Vale do Taquari atingida pelas cheias.
A Defesa Civil do estado contou mais de 581 mil pessoas desalojadas, num desastre que atingiu 478 dos 497 municípios gaúchos. Uma pesquisa do IBGE publicada em 2026 estimou 81.272 casas destruídas nas áreas pesquisadas. Outras 190.253 tiveram danos muito graves na estrutura. O levantamento também achou 922 mil pessoas que trocaram de endereço depois do desastre; para cerca de metade, a enchente foi o motivo.
Em abril de 2026, o governo federal informou que 12.468 moradias tinham sido entregues pelo programa de compra assistida. Nele, famílias que se enquadram escolhem um imóvel novo ou usado em área considerada segura. Somadas todas as ações de moradia, cerca de 25 mil casas estavam contratadas ou em contratação.
A autora pondera que casa contratada não é necessariamente casa entregue. Comprar um imóvel pronto pode acelerar a ajuda, mas também pode levar a família para longe do trabalho, da escola e dos conhecidos.
Porto Alegre, com cerca de 1,4 milhão de habitantes, concentrou parte da resposta em outro caminho: consertar e modernizar o sistema contra cheias projetado nos anos 1960. Ele soma cerca de 68 quilômetros de diques, 14 passagens que tinham comportas e 23 casas de bombas para água da chuva. Em maio de 2024, o Guaíba chegou a 5,37 metros, bem acima da cota de inundação de três metros.
Segundo a autora, a cheia mostrou falhas nas barreiras, na operação do sistema e na manutenção.
A prefeitura planeja 9 novas casas de bombas, 26 quilômetros de redes e galerias de drenagem e 2 quilômetros de parque linear. Também estão previstas 11 bacias de detenção, reservatórios que seguram a água da chuva por um tempo antes de soltá-la.
Para Ghisleni, diques, muros e bombas são essenciais em áreas densas, mas não eliminam o risco em todas as situações. Quando a água passa da capacidade prevista, ou quando a estrutura falha, a cidade pode ficar exposta de repente. Ela defende somar a essas obras soluções que retardem a enxurrada e guardem mais água.
Uma delas é a cidade-esponja, criada e difundida em várias cidades chinesas. Em vez de depender só de canos e canais para mandar a água embora o mais rápido possível, a ideia é absorver a chuva e soltá-la aos poucos. Segundo a autora, a experiência chinesa mostra que a técnica não precisa ficar restrita a cidades pequenas ou pouco adensadas: grandes centros podem adotá-la adaptando praças, ruas, estacionamentos e pátios de escola.
Segundo o texto, urbanistas de Porto Alegre defendem a abordagem para a capital. "Não precisamos importar modelos de cidade-esponja. Temos condições de criar uma cidade-esponja que aproveite a natureza que ainda temos", afirma Rualdo Menegat, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
A autora aponta obras que parecem ir no sentido oposto. Grandes áreas do centro estão recebendo novo calçamento de blocos de concreto, o que levanta dúvida sobre quanta absorção de água entra na reconstrução. Em vez de cidade-esponja, escreve ela, Porto Alegre corre o risco de virar uma cidade de blocos de concreto.
A chuva forte de junho de 2025 atingiu mais de 120 municípios gaúchos com cheias e deslizamentos. Para a autora, isso sozinho não prova que a reconstrução fracassou, porque obras grandes levam anos. As novas obras de drenagem de Porto Alegre têm conclusão prevista para 2031.
