Pilotos de companhias aéreas na América do Norte e na Europa trocam de avião no meio da mesma jornada de trabalho. Voam um Boeing 737NG, a geração anterior do modelo, e também um 737 MAX, segundo o site Simple Flying. A Boeing desenhou a cabine do MAX para manter a mesma habilitação de tipo do NG, isto é, a mesma licença para pilotar o modelo.

E, segundo o site, é essa habilitação comum que permite aos pilotos passar de um avião ao outro.

À primeira vista, pouco mudou. O painel do teto, os manches e as alavancas de potência parecem quase iguais. De acordo com o Simple Flying, as listas de verificação antes do voo, a sequência de passos na cabine e a posição dos interruptores do teto são idênticas às do NG. Assim, os hábitos criados em milhares de horas de voo passam direto para o MAX.

No lugar de um curso completo em simulador, longo e caro, o piloto faz um treino de diferenças. Ele trata só das telas novas e da lógica do software, não da técnica de pilotar. Relatos de pilotos publicados pelo WeFly dizem que esse treino obrigatório combina módulos no computador com sessões dirigidas no simulador.

Para o Simple Flying, preservar esse caminho de treino é uma proteção econômica importante para as companhias aéreas que lidam com falta de pilotos. Sem o gasto de uma habilitação separada, elas podem ampliar as escalas de voos e incorporar aviões novos sem sobrecarregar os simuladores. Também podem manter uma escala única e mandar o piloto para um modelo ou outro conforme a necessidade do dia.

Parte das mudanças, porém, age sem intervenção direta do piloto. O MCAS, sistema que ajusta o comportamento do avião em manobras, foi atualizado depois que o modelo ficou proibido de voar no mundo todo e voltou a ser certificado em novembro de 2020. Hoje ele compara dois sensores de ângulo de ataque, que medem a inclinação da asa em relação ao ar. Se as leituras diferirem em mais de 5,5 graus, a cabine recebe um alerta.

Além disso, o MCAS atual age uma vez só e não tira do piloto o comando pela coluna de controle. Outra mudança está nos spoilers de rolagem, placas na asa que ajudam o avião a inclinar. No NG, eles são movidos por cabos e atuadores hidráulicos. No MAX, recebem comando elétrico, o sistema chamado fly-by-wire. Segundo o Simple Flying, isso reduz o peso, melhora a resposta e abre sozinho os spoilers no solo numa decolagem abortada ou no pouso.

Na frente dos pilotos, seis telas quadradas menores, usadas no NG desde o fim dos anos 1990, deram lugar a quatro telas deitadas de cristal líquido, com 15,1 polegadas cada. Elas são fornecidas pela Collins Aerospace e usam uma arquitetura adaptada do Boeing 787 Dreamliner. Instrumentos que antes tinham espaço próprio no painel, como o indicador de posição dos flaps (as abas móveis da asa) e os relógios de reserva, agora aparecem dentro dessas telas.

Segundo o Simple Flying, a área maior das telas tornou possível a tela de situação vertical. Abaixo do mapa de navegação, ela mostra em tempo real a altitude do avião em relação ao terreno, às rampas de aproximação e aos limites de altitude de cada ponto da rota. Segundo o Simple Flying, ela substitui contas de cabeça em descidas íngremes para aeroportos entre montanhas ou em espaço aéreo congestionado.

Muitas companhias instalam ainda, no posto do comandante, um sistema de guiagem projetada da Collins. Ele mostra a trajetória, a velocidade e o alinhamento com a pista numa placa de vidro, na linha de visão do piloto. Com isso, o comandante pode fazer aproximações com visibilidade muito baixa, da Categoria III, sem perder de vista o lado de fora.

Alguns comandos também mudaram de lugar. Nos 737 mais antigos, a alavanca do trem de pouso e instrumentos auxiliares ficavam espalhados pelo painel. No MAX, a alavanca e o instrumento de voo de reserva ficam no centro, entre as telas internas, ao alcance dos dois pilotos numa emergência. O painel do freio automático foi para a parte baixa do console central, à frente das alavancas de potência.

Segundo o Simple Flying, toda essa aviônica digital do século 21 está montada sobre uma base estrutural que vem dos anos 1960.