Dois doutorandos da Universidade de Würzburg, na Alemanha, faziam reações com materiais de partida relativamente simples quando viram surgir sólidos laranja ou amarelos. Lukas Lubczyk e Christian Markl trabalhavam cada um por conta própria. Os dois testavam um composto chamado diboracumuleno com várias cetonas, substâncias muito usadas na síntese orgânica, a produção de moléculas com carbono em laboratório.
As reações tinham produzido oxoboranos, moléculas em que um átomo de boro se prende a um de oxigênio por uma ligação tripla. Nesse tipo de ligação, os dois átomos dividem três pares de elétrons. Químicos do mundo todo tentavam isolar versões estáveis dessas moléculas desde pelo menos o começo dos anos 1960. O resultado saiu na revista Nature Chemistry.
Ao longo dessas décadas, grupos de química orgânica e inorgânica chegaram a detectar oxoboranos e a prendê-los em condições extremas. Outros experimentos deram sinais indiretos de que eles existiam, e alguns derivados próximos foram criados. Faltava uma amostra estável, que pudesse ser separada e examinada.
Segundo a universidade, o que mais chamou atenção foi o oxoborano aparecer como produto principal, embora outras reações parecessem mais prováveis. O professor Holger Braunschweig, que liderou o trabalho, resume o espanto da equipe: “Quase todo mundo na área tinha desistido dos oxoboranos, porque eram considerados instáveis demais para serem isolados. Então ficamos atônitos ao vê-los se formar espontaneamente nessas reações e durar o bastante para que pudéssemos estudá-los”.
Para Lubczyk, a descoberta foi “uma surpresa agradável”. “Nunca pensei que o diboracumuleno reagiria daquele jeito, muito menos com vários substratos diferentes e simples”, diz. Ele conta o momento em que o colega apareceu com o próprio resultado: “Quando Christian veio até mim com o composto dele, eu soube que estávamos diante de algo”.
O achado se soma a uma linha de pesquisa que Braunschweig mantém há mais de 15 anos. O boro raramente forma ligações triplas, e o grupo dele tenta criar moléculas com ligações incomuns desse elemento. Em 2012, o laboratório relatou a primeira molécula com ligação tripla entre dois átomos de boro. Em 2025, produziu a primeira molécula neutra com ligação tripla entre boro e carbono.
Os cálculos que apoiaram o estudo vieram do grupo do professor Ashwini K. Phukan, da Universidade Tezpur, na Índia. O dinheiro veio da Fundação Alemã de Pesquisa (DFG), do Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico (DAAD) e do Departamento de Ciência e Tecnologia (DST) da Índia.
Com o novo método, os pesquisadores já prepararam três oxoboranos diferentes. Segundo a universidade, o fato de a técnica funcionar com mais de um composto sugere que ela pode abrir caminho para uma variedade bem maior dessas moléculas. A equipe agora investiga até onde o método pode ser aplicado. Também espera descobrir se estratégias parecidas podem ajudar a criar outros compostos difíceis de obter, com elementos de toda a tabela periódica.
